Expedições Qhapaq-Ñan

Percorrendo os Andes em Bicicleta - Diário de bordo do site www.qhapaqnan.net - Textos e fotos: Manuel Terra - (amplie as fotos clicando)

Sajama - Salta 1350km. Agosto de 2007 (Andes2)

Após o primeiro contato com a cordilheira, em 2005 surgiu o projeto de percorrê-la de Norte a Sul. Decidi fazê-lo sozinho e o fato de não contar com um companheiro me fez redobrar a atenção nos detalhes para garantir o bom término da viagem. Foram 17 etapas onde encontrei frio, gelo, vento, cascalho e muita areia. No caminho parei para descansar em algumas cidades para recuperar forças e conseguir suprimentos.
Meses antes e após o estudo detalhado, utilizando mapas, internet e outros recursos, elaborei uma rota de acordo com o tempo de que dispunha, terreno que encontraria e pontos de interesse. Esta equação nunca é ideal, pois viajar de bicicleta exige considerar cada "desvio".
A rota final foi modificada em andamento pois tinha previsto atravessar a Reaserva Eduardo
Avaroa mas devido as limitações da minha bicicleta, uma touring, decidi desviar da minha rota original e pegar a estrada rumo a Villazon e voltar com uma BTT (MTB) em outra ocasião. Desta forma conheci a não menos interessante região de Tupiza e a Quebrada de Humahuaca.
A expedição foi um sucesso e o unico contratempo foram 2 furos no pneu, bastante normal numa viagem em bicicleta.
Visite também o site: www.qhapaqnan.net

Chegada em La Paz

Dia 1º de agosto de 2007. Depois de um périplo aéreo pela América do Sul, pousei ontem em La Paz, a 3800 metros de altitude. Ainda sinto o "soroche" (mal de atitude), como chamam por aqui. Nada grave, entretanto, somente um pouco de cansaço e a respiração acelerada quando caminho um pouquinho mais rápido pelas ladeiras de La Paz. Por sorte, desta vez não senti dor de cabeça ou arritmia respiratória noturna. Ficarei aqui no processo de aclimatação até o dia 04 de agosto, quando tomarei um ônibus até Sajama. A partir daí, desta vila encostada no mais alto vulcão da Bolívia (6500m), partirei rumo ao Sul com destino a Salta na Argentina, 1300km depois. Além de aproveitar para revisar o meu equipamento e aclimatar, farei compras amanhã de comida para a viagem (carne enlatada, miojo, chocolate, sardinhas, café solúvel, maçãs, biscoitos etc.) Como tenho previsão de acampar algumas vezes e não encontrarei lugares para abastecer - a não ser água e coisas mais básicas em alguma vila - preciso de autonomia para trechos sem povoados. Meu equipamento ronda os 17 quilos, porém com água e comida deverei carregar uns 27. A partir de Sajama não tenho idéia de quando terei novamente água quente, acesso à internet ou qualquer conforto. Já estou me preparando psicologicamente para entrar em contato o espírito da sobrevivência. Até o próximo contato. Saudações desde o Altiplano.

Chegada em Sajama dias 04 e 05 de agosto

Depois de 03 noites em La Paz, fui de ônibus para Sajama na fronteira com o Chile. Sajama é uma vila visitada por alpinistas do mundo inteiro, pois fica aos pés do maior vulcão da Bolívia: o Sajama (6500m). A vila fica a uns 4000m de altitude onde faz muito frio. Fiquei hospedado na casa de uma senhora sem luz, banheiro ou água encanada. No dia seguinte a minha chegada descobri que peças fundamentais do meu equipamento tinham sumido: o ciclocomputador (do qual poderia prescindir) e ferramentas para bicicleta sem as quais não faria uma viagem como esta. Tive muita sorte no final, pois chamei o garotinho, filho da dona da casa para conversar e misteriosamente estes itens apareceram novamente. Um detalhe destes poderia ter arruinado minha viagem ou me forçado a voltar a La Paz em busca de substitutos. Cheguei no dia 04 bastante doente, pois na noite anterior em La Paz havia jantado pesado e a altitude compromete a digestão, tornando-a mais lenta e trabalhosa. Tentei dormir quase o dia todo buscando recuperação. No dia seguinte fiz um pequeno pedal até as águas termais de Sajama, uma piscina de água quente natural (um laguinho), aquecida pelas profundezas dessa terra vulcânica e com a vista do famoso Sajama ao fundo. As pessoas locais, banhistas, sempre simpáticas e curiosas pela minha viagem singular.

Primeiro dia de Pedal, Sajama-Macaya, 63km

Em 06 de agosto parti às 9:30h da manhã e pedalei 13 km por caminhos de terra até a estrada La Paz / Arica (estrada de asfalto). Segui mais 9 km até Tambo Quemado que constitui a fronteira com o Chile - o vento nesse trecho era absurdo e avancei muito devagar. Em Tambo aproveitei para tomar uma sopa quente e averiguar sobre o caminho de terra até Macaya, meu destino do dia. Fui me distanciando do Sajama, que ainda estava presente na paisagem. Logo no início do caminho que sai de Tambo Quemado rumo ao sul, furei o pneu da frente por causa do impacto das pedras, em um declive. Fiz o reparo no meio do forte vento, já percebendo que não tinha pneus grossos o suficiente para o terreno que viria a frente. Passei pelas vilas de Chachacomani aos 35km e de Mogachi aos 48km. Aqui o caminho é mais uma trilha que por horas é invadida pelo rio. Cheguei finalmente em Macaya no dia 06 à tarde, quando se comemora o dia Nacional da Bolívia e todos (média de uns 50 habitantes) estavam bastante embriagados. Talvez por isso foram exageradamente solícitos e me conseguiram um quartinho na casa de um casal de vizinhos, uma espécie de quarto de ferramentas com um colchão velho de palha onde estendi meu saco de dormir. Depois de instalado fui até a praça, virando a esquina da minúscula vila em busca de alimento quente. No meio da festa o Tenente Coronel do Posto Militar de Andinismo, que conta com 20 soldados, já me ofereceu jantar no quartel e ordenou a 2 soldados que me preparassem algo de comer. Faço um destaque sobre a precariedade do vilarejo que não conta nem com água encanada e nem com luz elétrica. Iluminado pela lanterna de um soldado jantei no frígido refeitório, usando louça de alumínio. Fiquei um pouco decepcionado pois não era o jantar gostoso que procurava. Conversei com os soldados que ali fazem parte do serviço militar. O Tenente ainda tinha ordenado que dois soldados ficassem de sentinelas na porta do meu alojamento "para minha segurança", o que achei bastante exagerado. Dispensei os soldados, pois estava certo de que o Tenente deu a ordem como mostra de hospitalidade somada a alta ingestão de álcool e patriotismo em festa.

Macaya - Sabaya, 90km

Em 07 de agosto parti de Macaya às 9:10h. A cidade estava adormecida devido às festividades do dia anterior. Agora o caminho era uma trilha onde surgiam camelídeos a todo momento (Lhamas, Alpacas e Vicunhas). Após 07 km, aproximadamente, cheguei ao rio Lauca. O rio tinha uns 30 metros de largura e uns 50 cm de profundidade e fazia tanto frio que nas margens e em alguns pontos do centro havia placas de gelo. Descarreguei minha bike e tive que atravessá-la com a água na altura dos joelhos. De tão fria a água queimava. Tive que fazer esta operação duas vezes, uma para passar a bike e outra para minha bagagem. Mesmo estando à beira de um colapso, continuei o caminho aos pés do cerro Pukintika. Passei pela vila de Queaqueani, Tunari e Tunupa e alguma outra “fantasma". Na verdade, todas estas vilas estavam bastante abandonadas, pois Sabaya, capital da região, estava em festa reunindo todo mundo das outras vilas. Celebravam, provavelmente, alguma virgem ou santo. Pedalei nesse dia 60 km por trilhas e caminhos cheios de areia e pedras, até chegar a um deserto de areia e dunas. Empurrei, empurrei e empurrei mais um pouco já bastante desmoralizado. Providencialmente passou um único carro nesse dia para quem pedi carona para sair desse atoladeiro. Paguei alguns poucos dólares ao motorista e ele me levou até Sabaya. A areia era tanta que paramos umas 5 vezes para desatolar o carro com uma pá, retirando areia dos pneus, abrindo uma espécie de canal para o carro passar. O deserto é de uns 30 km. Em Sabaya me instalei na pousadinha simples da cidade e fui ver a banda passar, uma espécie de carnaval boliviano onde os participantes estavam vestidos a caráter com roupas coloridas e onde tanto os músicos, quanto os dançarinos, estavam completamente embriagados. Fiz várias fotos e depois um dos participantes se aproximou para conversar. Vendo que eu era brasileiro, foi muito hospitaleiro, me oferecendo comida e bebida à vontade.

Sabaya - Salar de Coipasa, 64km

Em 08 de agosto parti de Sabaya às 9:00h e pedalei 25km até a vila de Vitalina, perto do Salar de Coipasa. Ali também estava vazio, pois todos estavam em Sabaya. Perguntei a uma das poucas pessoas que vi onde encontraria água e fui indicado a uma escolinha, onde estacionei a bicicleta e logo fui de encontro ao poço. Enquanto retirava água, apareceu a professora da escola para me ajudar. Enchi bem todos os meus reservatórios: 7,5l e segui meu caminho até o km 42 onde encontrei o Salar. Sempre por terreno arenoso, meio desorientado, cheguei num arraial chamado "Acampamento". Ali pesquisei que caminho deveria seguir. A situação era preocupante pois o GPS não funcionava bem, parecia não indicar o sul. Já tinham me avisado que poderia haver alguma interferência e que o Salar tinha magnetismo. Fui indicado para apontar meu rumo a uma certa montanha em direção a Llica, cidade onde queria chegar. Entrei no Salar de Coipasa já meio tarde. As beiradas têm a capa de sal mais fina e por baixo a terra é úmida, de forma que os pneus da bicicleta se afundavam uns 3 cm. O progresso do pedal foi lento, mas uma vez avançado, a crosta de sal tornou-se mais dura e o pedal fluiu. Consegui desenvolver uma média de uns 20 km por hora. A boa noticia é que mais para o centro o GPS voltou a funcionar melhor. Avancei 20 km para dentro do salar e parei às 17 horas. Estava rodeado de um mar de sal. Montei a barraca sem problemas e me sentei pra jantar. De noite ventou muito e acordei várias vezes vendo a barraca tremer, mas ao final ela agüentou bem.

Salar de Coipasa - Llica, 50km

Dia 9 de Agosto. Acordei cedo e fiz tudo com calma, montar a bike, café da manhã etc. Na verdade pensava que os 50 km que tinha pela frente seriam moleza e chegaria cedo em Llica. Após acoplar os alforges e amarrar bem tudo, parti. Pedalei mais 10 km no salar e na saída a beirada estava mole novamente o que ja me fez reduzir muito a velocidade. Após a beira havia uma região com "bofedales" e tive que ir desviando destas plantas que são como calombos no chão. Uma espécie de musgo. Depois desta área encontrei um deserto pura areia. Sempre usando o GPS fui em busca do caminho. Empurrei a bike por 2 km, já um pouco preocupado de não encontrar a trilha, mas finalmete esta apareceu meio camuflada no deserto. Nesses trinta e tantos quilômetros a seguir enfrentei muita areia, muita mesmo. Comecei a pensar que este país não foi feito para as bicicletas, sem dúvida ja tinha percebido que tinha que ter vindo com uma bici de montanha com pneus grossos. Minha híbrida sempre deu conta dos "terrenos off road" até então, mas a Bolívia estava me dando muito trabalho. A areia se alternava com costelas que por incrível que pareça eram bem vindas porque pelo menos assim eu avaçava. Com a areia se derrapa muito, se faz um esforço enorme, não se avança e volta e meia levava um tombo devido a força aplicada no pedal e a falta de consistência do piso. Depois de muito esforço cheguei por volta das 17:30h em Llica, a porta de entrada para o Salar de Uyuni. Bastante contente pois tinha telefone e internet. Infelizmente não pude usar nenhum dos dois pois estavam saturados. No interior boliviano é raro encontrar internet.

Llica - Salar de Uyuni, 85km

Dia 10 de Agosto. Parti às 10 da manhã de Llica após passar pelo portal do quartel da cidade desejando boa viagem. Pedalei por estrada de terra uns 2 ou 3 km até entrar no maior Salar do mundo. A esquerda tinha como referência o vulcão Tunupa e logo em seguida vislumbrei um ponto no horizonte: a Isla del Pescado. O terreno neste Salar é muito mais firme e o sal está solidamente cristalizado formando uma capa muito mais grossa que em Coipasa. Pedalei firme com boa velocidade apontando pra ilha e nada mais se enxergava do outro lado do horizonte. Seriam 160 km até o outro lado, sendo percorridos em 2 etapas, representando a versão mais longa da travessia em diagonal. Passados 60km após a partida de Llica, alcancei a ilha, que é cheia de vegetação, especialmente cactos. Como era de tarde, decidi não acampar na ilha e pedalei forte mais uma hora e meia ate às 6h da tarde, momento limite, pois o sol iria se pôr 20 minutos depois. Pedalei bem até alcançar 85km e no horário previsto, ao entardecer parei para acampar completamente no centro desse mar de sal. Qual não foi minha surpresa quando me dei conta de que não seria possível montar a barraca já que o duríssimo solo de sal impedia que eu fincasse os ferros de estrutura. Tive que decidir rápido, pois a temperatura e a luz baixavam mais a cada instante. Poderia pedalar mais um pouco até uma outra ilha menor onde encontraria solo de terra, ou ficar ali, dormir a céu aberto. Decidi pela segunda opção porque chegaria na escuridão na ilha e talvez nem enxergasse a metade do caminho. Estendi a barraca no chão, coloquei o isolante e abri o saco de dormir dentro da barraca que serviu de corta vento. Coloquei quase toda a roupa que tinha pois sabia que faria aproximadamente menos 15 graus. Jantei umas sardinhas com pão, fruta e chocolate e me enfiei naquele refúgio improvisado contemplando um pôr-do-sol maravilhoso. Assim dormi olhando para as estrelas. Acordei algumas vezes de madrugada, mas tive a grande sorte desta noite não ter havido vento. Despertei para ver o sol nascer e me deparei com as frutas, a água e os tomates completamente congelados (tinha separado uma garrafinha e colocado dentro do saco pois imaginava que isso aconteceria). Inclusive o reservatório de água da mochila, de 3 litros, tinha virado uma pedra, sem uma bolha sequer. Quando desmontei o acampamento pensei que tinha sal cobrindo o saco, mas não. Devido ao vapor que escapava através do tecido, uma camada de gelo se formou entre o saco e o forro. Durante a noite tive a precaução de colocar minha luz intermitente de seguraça (pisca pisca) acoplada ao meu tripé de fotografia, para nã0 ser atropelado por algum veículo em trânsito pelo Salar.

Salar de Uyuni - Uyuni, 96km

Dia 11 de Agosto. Saí as 8:30h depois de rapidamente desmontar o acampamento e tomar café da manhã com ovo duro congelado e tomates petrificados. Ainda fazia muito frio apesar de ter amanhecido um belo dia andino. Segui o cursor do meu gps para sair do salar. Têm momentos de monotonia quando se atravessa uma superfície assim que parecia o mar de tão imenso. Para quebrar a monotonia, inventei uma brincadeirinha: fechava os olhos e pedalava as cegas, contando para ver quanto tempo poderia agüentar. Creio que deve ser o único lugar do mundo onde se pode fazer isto. Era só manter o equilíbrio, pois não existia risco algum. Obviamente, todas as vezes que abria os olhos percebia que meu rumo tinha mudado. Cheguei a ficar um minuto pedalando a cegas. Inesquecível! A partir do meio dia a minha perna esquerda estava sendo queimada intensamente pelo sol. Parei várias vezes para colocar protetor mas o sol e o reflexo do sal eram brutais e sentia como se tivesse uma chama nesse lado. O Tunupa foi ficando mais longe e eu continuei a seguir o meu gps. Sai do Salar com mais 72km pedalados pela vila de Colchani, que subsiste da extração de sal. Peguei a estrada de terra que leva a Uyuni e no caminho encontrei 3 cicloturistas franceses. Conversamos e trocamos idéias. Eles tinham atravessado por Tahua e acampado na ilha. Seguimos a estrada de terra num ritmo mais relaxado ate completar os 96km por volta das 4h da tarde e chegar à cidade de Uyuni.

Uyuni, descanso.

Dias 12 e 13 de agosto. Inicialmente não tinha previsto parar em Uyuni, mas uma série de fatores me fez reavaliar o meu itinerário. Primeiro precisava abastecer provisões, lavar roupa, usar telefone e internet, coisa que não tinha sido possível em outras paradas. Em Uyuni encontrei um hotelzinho (Avenida) com boas instalações e água quente, coisa que precisava há dias. Isso foi bem recompensador e seria a base de um descanso que me permitiria continuar com força. E segundo que até a última hora não sabia como seria a incursão a Sud Lipez e se seria mesmo possível. Depois de muito pensar e considerar mudei o meu itinerário, principalmente por dois motivos: a possibilidade de neve nesta época do ano e o fato de não contar com a bicicleta apropriada para enfrentar o terreno que é extremamente duro. Para isso precisaria de uma bicicleta de montanha com pneus grossos para atravessar essa região. Os cicloturistas franceses tinham passado por lá e me desaconselharam, pois com minha bicicleta teria muitos problemas. Eles mesmos, bem equipados, tinham sido socorridos por 4x4s em grande parte do caminho. Isso não foi difícil de entender, pois tinha passado por trechos árduos em etapas anteriores. Decidi, portanto, tomar outro caminho, via Tupiza. Uyuni é bem turística e conta com vários restaurantes para gringos, locais com internet, lojas de comestíveis, de artesanatos e hotéis com instalações modernas. Têm muitos turistas que vão especialmente fazer os tours do Salar e das Lagunas. Uyuni é famosa por ser extremamente fria.

Uyuni - Atocha, 103km.

Dia 14 de Agosto. A partida de Uyuni foi tranqüila, às 10:15h, pois tinha previsto acampar no caminho e poderia escolher meu destino aleatoriamente, de acordo a luz do dia e parando ao entardecer. Meu pedalar fluiu bem e o ritmo facilitou um progresso constante. A estrada aqui não é uma maravilha, pois continua com "calaminas" (costelas) e areia em trechos curtos, mas é uma estrada de terra e não caminhos rurais como tinha enfrentado anteriormente. Encontrei dificuldade nos areais de mais ou menos 2km, onde tive de empurrar a bicicleta e onde me vi, de repente, dentro de um verdadeiro deserto (novamente) com dunas e vento. No km 33 encontrei um "pueblo" mais ou menos vazio, chamado Coroma. Logo depois do primeiro areal. No km 57 passei por Rio Salado, com o seu correspondente rio que também estava mais ou menos vazio. Aos 65km encontrei uma descida, a primeira que iria caracterizar a tendência ao declive contrastando a fluidez de rodagem com o segundo areal no km 74, logo antes do pueblo de Cerdas aos 78km. Desci mais e com grande estilo no km 85 por uma série de "canyons" que me hipnotizaram ao entardecer solitário. Estava encantado com o visual neste espetáculo íntimo de puro encontro. Embora estivesse já entardecendo, sabia que chegaria esse dia em Atocha. Já tinha sido alertado que em Atocha se chega pelo leito do rio. Assim pouco antes liguei minha lanterna e fui pilotando com cautela até chegar de noite e cansado às 19:30h. Minha entrada na cidade não foi muito gloriosa. Nas proximidades o esgoto desemboca no rio e as escuras enfiei o pé na água imunda o que depois de 7:30h sentado em cima da bicicleta me derrubou moralmente. Encontrei uma cama por R$3,00 (10BS) numa hospedagem e não pude tomar banho direito, apenas enxaguar um pouco meus pés antes de dormir. Atocha é uma cidade simples e realmente não tem nada que a destaque a não ser a sua estação de trem, um mercadinho simples e uma avioneta Cessna num pedestal em praça publica. No gringos here.



Atocha - Mina Tolamayu, 46km

15 de Agosto. Saí às 9:15h depois de tomar um café da manhã típico no mercado com "buñuelos" e café. Aproveitei também para comprar alguma fruta e pão para o caminho. A saída da cidade também é feita pelo leito do rio que de manhã estava congelado e minha bicicleta fazia de quebra gelo através do leito. Entusiasmado pela distância percorrida no dia anterior, tinha intenção de fazer o mesmo e chegar em Tupiza nesse dia, coisa que não se realizou, pois uma vez mais dependia do terreno para avançar. Uma região muito montanhosa aparecia a minha frente ao invés de descidas. Uma sucessão de subidas e pequenas descidas que me levariam dos 3700m aos 4200m. De fato há um grande declive até Tupiza, mas não o veria até o dia seguinte. Na paisagem de Atocha esta o "cerro" Chorloque, um belo vulcão. Esta visão me acompanhou durante grande parte do trajeto por esta cadeia montanhosa nas alturas. A não ser a Villa Solano, aos 15km, e uma pastora com seu rebanho mais à frente, não encontrei nenhuma alma. Muito cansado pela altitude e as intermináveis ladeiras, me dei conta de que não chegaria até Tupiza neste dia e me coloquei atento em busca de algum bom lugar para acampar, coisa que não me pareceu fácil ali, pois ventava muito e não parecia haver refúgio. Depois de furar um pneu e fazer o devido reparo, pedalei ate encontrar uma pequena comunidade mineira aos 4115m. Ali me receberam em um pequeno quarto empoeirado. Após varrer um pouco a área com uma vassoura emprestada por uma menininha, estendi meu isolante e meu saco de dormir. Nesta comunidade jantei no "rancho" com os mineiros, fui dormir cedo e com frio.


Tolamayu - Tupiza, 64km

Dia 16 de Agosto. Acordei cedo e fui tomar um café no rancho com alguns mineiros que estavam indo extrair zinco das Minas da empresa "Villegas". Enquanto arrumava minhas coisas a criançada se amontoou curiosa ao redor do equipamento. As aulas estavam para começar na escolinha da comunidade. Na partida para a estrada, logo no início, enfrentei o mesmo terreno montanhoso com subidas, como no dia anterior, chegando aos 4200m em duas ocasiões, até os primeiros 10km. No km 12 começou a se insinuar o declive, continuando no km 19 com mais descida até o km 24. A partir daí o terreno se manteve mais constante até o início do declive intenso. Precisei alternar entre os freios traseiro e dianteiro, sentindo o cheiro de borracha queimada até o pueblo de Salo, aos 37km. Nesse ponto, a altitude era de 3272m. Ali tomei uma sopa para repor as energias e continuei até Tupiza, aonde cheguei as 16:00. A estrada entre Salo e Tupiza tem tendência ao declive e percorri esse trecho admirando a belíssima paisagem que mais se parecia ao cenário de um filme do velho oeste, rodeada por montanhas rochosas, em tons ocres e avermelhado. Antes de chegar topei com os pueblos de San Miguel no km 45 e Tambillo no Km 57.

Tupiza, descanso

17 de Agosto. Segui a vida calmamente e feliz no cálido clima de Tupiza. É uma cidade muito agradável onde encontrei conforto e boa comida oferecida por um povo também mais cálido. Fiquei no "hospedaje My Home" na rua Avaroa. Lavei minha roupa empoeirada e desfrutei eternamente de chuveiradas quentes. O meu dia coincidiu com as festividades da bandeira boliviana e assisti ao desfile em praça pública, me entrosando na festa popular, comendo "tamales" e "charquecan", tomando refrescos típicos feitos de linhaça, soja ou pêssego. Logo cedo conheci um australiano no mercado, um dos poucos gringos. Tomamos um café expresso, indicado por ele, e marcamos para jantar mais tarde, acompanhado por sua esposa. Durante o dia levei a minha bicicleta para uma lavagem num mecânico de bicicleta dos vários da rua Santa Cruz. Eu mesmo fiz alguns ajustes nos freios, lubrifiquei a corrente e fiz outros ajustes referentes aos alforges. No mercado comprei frutas, pão e alguma coisa mais para a estrada do dia seguinte. A praça é muito simpática, arborizada e tem varias sorveterias e gente jovem. Internet não é um problema e a juventude lota os cybers. Tive problemas atualizando este blog pela velocidade da conexão, mas finamente consegui e fui para o hotel, já tarde, para me preparar para o dia seguinte. Próximo destino: Villazon - a tijuana bolivina.

Tupiza - Villazon, 92km

Dia 18 de Agosto. Parti às 9:15h, depois de passar no hotel Mitru para tomar café da manhã e no Il Bambino para comprar umas empadas salteñas para a estrada. Comecei o dia muito focado no meu objetivo: pedalar cerca de 100 quilômetros. Os primeiros poucos foram de rolamento fácil, mas logo entrei numa área muito montanhosa a qual me tomou várias horas de esforço. Foram 50km de pedal para atravessar a cordilheira Chichas, muito seca e cheia de cactos. Após o km 50, o terreno muda e favorece um desempenho melhor, mais pampa e geografia típica do altiplano. Esta etapa foi a mais movimentada de veículos. Passaram por mim vários caminhões de carga me fazendo comer poeira, assim como alguns ônibus de passageiros. Esta estrada também é de melhores condições, apesar das costelas, da poeira e do cascalho, como sempre. Me organizei estrategicamente para fazer 4 lanches durante o caminho e poder contar com minhas pernas ate o final. As paradas foram mínimas e quase não fiz fotos pois queria chegar no meu destino na luz do dia. No km 67 vi a primeira placa de toda a viagem (que me lembre), indicando cidades em uma bifurcação: Tarija/Villazon. Este trecho foi igualmente o mais povoado e passei pelas comunidades de Iyumi, Toploca, Suycuchacra, Chuquiago, Sta. Rosa, San Silvestre, Charaja, Saladillo, Arenales, El Tambo e Mojo. Cheguei em Villazon cansado, às 6h da tarde e me hospedei no Hostal Plaza. Após a rotineira volta a vida, passando por chuveirada, roupa limpa e jantar, fui dar um passeio na Argentina. Villazon é colada com La Quiaca, passo fronteiriço, foi simplesmente atravessar a ponte e pronto, já estava na Argentina. Não tive nem que apresentar documento, pois estava somente indo tomar um refrigerante. Quando passar a fronteira com a bicicleta e entrar de fato na Argentina deixando para trás a Bolívia, terei que fazer uma burocracia mínima. Amanhã cedo sairei da Bolívia, um dos paises mais pobres do continente e de maioria indígena, depois de mais de 700km de caminhos de terra cheios de areia, cascalho e intermináveis "calaminas", para entrar em um dos países mais desenvolvidos, de forte colonização européia. Será um grande contraste. O primeiro é que imediatamente após passar a fronteira começa o asfalto, que continuará ate o final da minha viagem em Salta. Assim que passar a fronteira, devo comprar um mapa de estradas para planejar a minha rota com mais precisão e calcular minhas paradas para concluir no dia 26. Ou seja, ainda não tenho o destino de amanhã.

Villazon - La Quiaca, 5km

Dia 19. Saí do meu hotel às 9h, me despedindo da Bolívia rumo a Argentina. Perdi 2 horas nas filas da fronteira e como na Argentina é uma hora mais tarde (como no Brasil), perdi um importante tempo, principalmente porque a cidade de La Quiaca não tinha casas de câmbio. Já estava na saída da cidade, rumo a Abra La Pampa que fica a 75km de distância, quando pensei 2 vezes e decidi ficar. Almocei calmamente e voltei para Villzon para comprar pesos já que o dia seguinte seria festa nacional e os bancos estariam fechados. A partir de agora será só asfalto e como tenho minha chegada prevista em Salta para o dia 26, vou com tempo e poderei me permitir paradas turísticas em Humahuaca e Tilcara. Daqui até Salta são mais ou menos 380km que pedalarei em 4 etapas. La Quiaca é bem mais tranqüila, mais arrumadinha e mais cara. Tem pouco comércio e se come muito melhor que na Bolívia. Por outro lado Villazon é bem agitada, especialmente na rua da ponte (fronteira), onde se vende de tudo, tem casas de câmbio e um ambiente bem muambeiro. As duas cidades estão a 3300m de altitude e convivem na sua diversidade como uma só. Em Villazon circulam as duas moedas e as coisas têm 2 preços, já do lado Argentino só aceitam pesos mesmo. Outra observação é que a internet nas 2 cidades é muito mais rápida que em todas as outras que já estive ao longo do trajeto. Isto se explica ao fato de que aqui é via telefone e nos outros pontos como Llica, Uyuni e Tupiza, é por satélite. A primeira coisa que se lê ao entrar na Argentina é "Las Malvinas son Argentinas"

La Quiaca - Humahuaca, 161km

Dia 20 de Agosto. Saí do meu hotel na rua Belgrano às 10:15h, decidido a pedalar até Abra Pampa. Antes de sair troquei o pneu traseiro da bicicleta colocando o de reserva, mais fino para rodar melhor no asfalto. Na operação perdi a segunda câmera, reserva da viagem, pois o bico simplesmente soltou da borracha. Agora só me resta uma. Pedalei forte, favorecido pela planície da Puna e o bom estado da estrada. Cheguei cedo(às 13h, com velocidade média de 29,7 km/h) em Abra Pampa (3350m) - a Sibéria Argentina - nome com o qual foi fundada. Parei para almoçar ali mesmo e já tinha decidido esticar a jornada até Humahuaca. Às 14h voltei para estrada bem focado e calculando a média mínima para chegar com luz. No km 100 (3610m), já tinha atravessado toda a Puna da província de Jujuy e começava a Quebrada de Humahuaca (patrimônio natural da humanidade) que revelou suas montanhas espetaculares. Logo depois encontrei o Marco, cicloturista alemão. Conversamos uns 20 minutos trocando informações e confraternizando. Nos despedimos e cada um seguiu no sentido contrário. Com a Quebrada começou também a descida que me levaria até os 2850m do meu destino do dia. Cheguei na simpática Humahuaca às 19 horas, com uma média de 26,10 km/h. Foram 6horas e 8 minutos sentado na bicicleta. Hoje passei pelos pueblos de: Pumahuasi(km 23), La Intermedia (km 38), Puesto del Marques(km 52), Abra Pampa (km 73), Tres cruces(km 103), Azul Pampa (km 122). Todos bastante pequenos.

Humahuaca - Maymara, 57km

Dia 21 de Agosto. Hoje sai tarde, depois de um merecido descanso e um passeio pela turística Humahuaca. Às 13:15h saí pela porta da pousada "El Relojero". Neste dia levei o pedal com muita tranqüilidade, parando para fazer fotos várias vezes e contemplando a belíssima Quebrada, cujo título de Patrimônio da Humanidade é muito merecido. Fiz algumas paradas também para conhecer rapidamente alguns pueblos. Esta área é bem turística e conta com infraestrutura e informação nos pontos de maior relevância. A estrada continuou a descer e praticamente não pedalei, somente me deslizei pelo asfalto admirando as montanhas. Passei por San Roque (km 6), Urquia (km 12), Colônia (km 22), Huacalera (km 28) e a bela e turística Tilcara (km 45), por onde dei um passeio antes de pedalar um pouco mais ate Maymara que fica aos 2350m de altitude.Neste ponto decidi uma vez mais modificar meu curso para voltar as montanhas.

Maymara - Acampamento Cuesta de Lipan, 53km

22 de Agosto. Parti às 10:30h de minha humilde morada. Maymara é bem mais simples e menos turística que Humahuaca ou Tilcara. Talvez por isso consegui alojamento bastante barato. A estrada continuou em declive, atravessando a Quebrada e passando pelo pequeno pueblo de Hornillos, no km 4. Logo depois cheguei a intercessão com a rota 52, no km 15 (2180m de altitude). Abandonei a rota 9, a qual vinha acompanhando e descendo desde La Quiaca e comecei a subir pela 52. Tinha percorrido 3/4 da Quebrada de Humahuaca e centenas de quilômetros em descida para mudar o perfil da viagem uma vez mais. No km 18 encontrei o pitoresco pueblo de Purmamarca com sua bela praça cheia de vendedores de artesanato. Aproveitei ali para garantir o prato de comida quente do dia ao redor das 12h. A Cuesta de Lipan é uma subida de praticamente 40km que chega a ser atração turística. Subi o dia todo calculando que ainda com luz chegaria no topo e poderia inclusive começar a descer para o outro lado das montanhas evitando o mal de altitude, vento e frio. A subida, entretanto, é severa e me levou mais tempo do que pensava. O vento logo depois de alguns km de subida começa a ser muito forte, o que me obrigou a descer da bicicleta ou a manobrar com perícia para continuar em cima dela. Fora a grande dificuldade da subida, a experiência foi memorável. Antes do km 32 da Rota 52 e faltando 5km para o topo, aproveitei para encher garrafinhas de água numa nascente a beira da estrada. Às 18:00h parei para me agasalhar, pois o entardecer e a violência do vento me preocupavam. Logo quando abri meu alforje perdi em um segundo meu protetor de rosto e pescoço (neck gaiter). Em um descuido de um instante, o vi voando em alta velocidade, a 200 metros estrada abaixo. Nem cogitei em correr atrás dele. O vento estava fortíssimo. Já neste ponto pedalava 100 metros e descansava 10 segundos para recuperar o fôlego, pois já rondava os 4000m. Continuei com a idéia de chegar ao topo e começar a descer, mas já era noite, ventava e fazia frio neste lugar inóspito. No km 42 passei pelo Abra de Lipan a 3969 e continuei com muito esforço estrada acima. A subida parecia não acabar nunca. Até que no km 53 do meu dia e preocupado pela noite e as condições, encontrei uma cabana de pedra a uns 200m da estrada, morro acima. Não tive muita dúvida e decidi acampar ali mesmo pois seria perigoso continuar. Subi a ladeira empurrando a minha bicicleta no meio de pedras e areia. Chamei pelos moradores da cabana, não obtive resposta e vi que a porta estava fechada com cadeado. Com a lanterna na boca, pois a estas alturas já eram 19:30h, já estava de noite comecei a montar a barraca a uns metros da cabana procurando me refugiar do vento com os muros de pedra. Dentro da barraca minha preocupação terminou e embora apertado, jantei ali dentro.

Aampamento Cuesta de Lipan-Acmpamento Salinas Grandes, 95km.

Dia 23 de Agosto. Apesar da altitude, dormi especialmente bem neste acampamento a 4170m. Foi difícil sair da “cama”, mas depois de um pouco de moleza e preparar minhas coisas, estava de volta à estrada as 10:30h. Logo no km 1,8 encontrei-me próximo ao topo da montanha, confirmando que tinha acampado entre o Abra da Cuesta de Lipan e o final da subida(Altos del Morado). Os poucos motoristas que passavam continuavam a buzinar e a me cumprimentar. No km 3, comecei o declive daquela magnífica “cuesta” (que em espanhol significa subida). Um novo horizonte se apresentou aos meus olhos, um conjunto de colinas e montanhas extremamente belas e coloridas bastantes similares às vistas na Quebrada, pois de fato não estava tão longe. No fundo e relativamente distante via-se o terceiro salar da minha viagem: as Salinas Grandes. O vento não era uma questão, mas o frio sim, pois apesar de estar fazendo sol ainda era cedo e o atrito do ar gelado se fazia notar. O ambiente criado por aquele novo vale e aquelas montanhas de outros tempos me surpreenderam com suas formas e cores de fantasia. Maravilhado, fui levado pela gravidade suavemente até o km 31 onde começou a planície das Salinas Grandes aos 3425m de altitude. Este salar é asfaltado e bem menor que os anteriores que tinha passado (Coipasa e Uyuni). Atravessei-o em direção a Susques e no km 45 entrei por uma estrada de terra à direita da pista, em busca de um prato quente de comida na vila de "Santuário de 3 Pozos". Depois de escassos 2 km, entrei nessa empoeirada comunidade e consegui comer no único restaurante. Durante a pausa pensei que seria melhor me dirigir em direção a San Antonio de los Cobres para não atrasar minha chegada em Salta. Assim voltei a estrada de asfalto e pedalei por onde tinha vindo, atravessando o salar novamente até o cruzamento com a rota 40 no km 67. Essa volta não foi nada sofrida pois o vento era a favor e a pista era asfaltada. Mas com a rota 40 começaram a poeira, cascalho, costelas e o vento contra, a níveis irritantes. Pensei que estrategicamente seria melhor pedalar o máximo que a luz do dia me permitisse para que no dia seguinte não tivesse uma distância excessiva nesse terreno tão difícil. Neste ponto tinha voltado a Puna (deserto de altitude típico do altiplano). Com o vento forte e piso de areia já estava pensando qual seria a melhor maneira de pernoitar, primeiro resguardo contra o vento e segundo firmeza das estacas da barraca na areia. Assuntos que de fato estavam relacionados...Mas sempre aparece uma solução e foi assim, por volta das 19 horas e com 95km pedalados encontrei uma série de muros de argila onde no passado houve uma casa. Ali mesmo refugiado do forte vento montei a minha barraca enquanto observava mais um pôr do sol inesquecível. Não consegui montar a barraca totalmente horizontal pois havia desnível (queria ficar próximo do muro) e também tive algum problema com a fixação das estacas, mas logo estava dentro da minha morada cigana jantando e vendo as fotos do dia, enquanto o vento uivava na imensidão da Puna.

Acampamento Salinas Grandes. San Antonio de los Cobres,72km

24 de Agosto. Após desmontar o acampamento e tomar um breve café da manhã, voltei a estrada às 9:40h. O caminho era bastante plano, porém as costelas são quase insuportáveis. Em certos trechos a areia torna a tarefa de cruzar esse território em um ato heróico. Aos 9km, uma raposa cruzou o meu caminho. Ela atravessou a estrada e ficou me observando desde um ponto na altura da colina. Também parei e retribui o gesto. Continuei pedalando a beira das Salinas Grandes e ao redor do meio dia parei para almoçar a beira do caminho. Ali mesmo aproveitei para trocar o pneu traseiro pelo de reserva, mais grosso, tarefa que vinha adiando durante toda a manhã. A tração melhorou levemente e talvez o amortecimento, mas certamente continuei a me esforçar muito a cada pedalada.Havia tanta areia em certos trechos que as costelas que apareciam eram bem-vindas. Pelo menos me permitiam avançar sem patinar naquele solo. Ás 12:30h começou o vento forte e fatalmente o trinômio: areia, costelas e vento, o que fez desta etapa uma das mais duras. Com 50km pedalados encontrei o cruzamento da RP 38 que vinha de Susques, o que me aliviou um pouco pois era uma novidade no meu dia e indicativo da proximidade do meu destino. Além de confirmar de que estava no caminho certo. Depois de alguns quilômetros mais, enxerguei ao longe a cidade que me esperava, e aos poucos e muito cansado cheguei em San Antonio de los Cobres (3735m). Cheguei no começo da tarde depois de 72km pedalados, 7 horas em cima da bicicleta com uma media de 10,3 km/h. Após consultar preços em 2 pousadas fiquei na mais barata pois não encontrei nenhuma com banho quente no quarto e o conforto que pensei iria encontrar lá. De fato é a maior cidade da região, mas além de internet não encontrei a infraestrutura esperada para me recuperar dos dois dias de acampamento na Puna, o que me decepcionou um pouco. A simpatia do pousadero: Don Tapia, que logo ao chegar me ofereceu uma xícara de chá e biscoitos, entretanto, foi reconfortante. Depois de jantar um prato quente de comida, tendo passado 2 dias me alimentando somente de enlatados, usei a internet e fui dormir no meu quartinho com telhado de zinco naquela cidade mineira.

San Antonio de los Cobres - Santa Rosa de Tástil,69km

25 de Agosto. Acordei com calma e sai para comprar alguma comida e água para minha jornada do dia. Pude constatar que fazia muito frio e o vento era imenso, empoeirando as ruas da precária vila. Pensando que o dia seria fácil, já que o caminho a frente era de descida, saí tarde, por volta das 12:45h. Empreendi a minha jornada no meio de um vendaval que chegava a ser irritante. No início a pista ainda de terra sobe um pouco até os 3880m e foi nesse início que me vi imerso dentro de uma tormenta de areia, com um vento fortíssimo. Tinha areia até no interior de minhas luvas "full finger" que estavam fechadas no punho. Por sorte, neste começo o vento era a favor, o que favoreceu meu movimento, mas tinha momentos em que não enxergava um palmo a minha frente. A areia dominava a atmosfera. No km 14 encontrei o cruzamento para o Abra Acay e La Poma. Continuei pelo meu caminho e no km 23 cheguei no Abra Muñano, a 3970 metros de altitude, onde começava o asfalto. Ali em Muñano tem uma estação de trem abandonada onde encontrei refúgio do vendaval e aproveitei para colocar a capa de chuva nos alforges, trocar o pneu para um de asfalto, trocar o pisca e fazer algumas notas. Continuei o meu caminho na pista de asfalto com um vento absurdo. Repito que nunca tinha visto nada igual em minha vida. Tanto que era perigoso pedalar por aí. No acostamento direito, o vento - agora lateral - me jogava para o meio da pista podendo causar um acidente sério se passasse algum veículo. Por isso fui para o acostamento esquerdo, mas o vento me empurrava para fora da estrada. Era muito difícil pedalar, pois simplesmente não podia pilotar. Pedalava 10m e parava, empurrando a bicicleta, preocupado. A situação era grave e não conseguia manter o rumo. Apesar de aos poucos ir descendo, o vento continuava e nas curvas ou precipícios desmontava com medo de uma rajada me derrubar. Continuei pelo acostamento do lado direito por um bom tempo até que depois de alguns quilômetros diminuiu a violência. No km 49 passei pela vila de las Cuevas e no km 63 cheguei na placa indicativa das ruínas de Tástil. Pedalei por um caminho de terra por uns 2 km, até chegar nas ruínas, antigo assentamento pré-incaico e que certamente fazia parte do Qhapaq-Ñan. Completamente desertas, pedalei por trilhas dentro das ruínas e tirei algumas fotos. Depois, com o pôr-do-sol, voltei à estrada e com 69 km pedalados cheguei em Santa Rosa de Tástil, a 3095m de altitude. Certamente bem menor do que imaginei, pois a vila é composta de uma rua e poucas casas e tinha somente um lugar aberto onde eu poderia comer. Ali perguntei por pousada e me indicaram a muito humilde morada da Sra. Maria, onde sem luz e num quarto com 3 camas me instalei. Já estava no meu sexto dia sem tomar banho e me sentindo sujo e cansado. Iria para o sétimo, pois aqui também era inviável tomar banho. Troquei de roupa e fui jantar uma espécie de cozido no único local da vila.

Santa Rosa - Salta,108km. FIM.

26 de Agosto. Parti cedo, às 9:20h, desejoso de chegar ao meu destino final. O asfalto era muito bom e as paisagens belíssimas. Na descida passei pela Quebrada del Toro, Quebrada Carachi e pequena vila de Incamayo (43km). Com 49km pedalados começou um trecho de estrada de terra, onde o declive é mais leve. No km 64 passei pela pequena vila de El Mollar e no km 73 a estrada tornou a ser asfaltada. No km 75 cheguei na cidade de campo Quijano (1485m), bem maior que todas as da serra, e com uma ótima pinta para se descansar. Como já estava muito perto de Salta e ainda tinha algumas horas de luz pela frente, optei por continuar. O caminho até Salta é cheio de campos cultivados e de belas casas de campo. Na entrada de Salta me encontrei com várias rodovias e sinais de proibido andar em bicicleta. Num acostamento um arame entrou na catraca da bicicleta, se enroscando e travando a minha roda traseira. Por sorte parei a tempo do estrago não ser irreversível e consegui retirar o arame, o que atrasou minha chegada ao centro de Salta. A cidade é grande, tive que atravessar todo subúrbio até o centro. Finalmente encontrei meu destino final, depois de 17 etapas e quase 1400 km pedalados. Estava bastante desarrumado e com cara de quem atravessou o Altiplano em bicicleta, há sete dias sem tomar banho. Cheguei no meu belíssimo hotel de 4 estrelas. Nunca valorizei tanto o conforto e fui direto tomar um banho de banheira bem prolongado. Salta é uma bela cidade colonial, cheia de restaurantes, hotéis. É muito aconchegante e hospitaleira. Fiquei descansando 2 dias e peguei meu vôo para Buenos Aires, para logo voltar ao Rio de Janeiro.
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