Percorrendo os Andes em Bicicleta - Diário de bordo do site www.qhapaqnan.net - Textos e fotos: Manuel Terra - (amplie as fotos clicando)

Tupiza, descanso

17 de Agosto. Segui a vida calmamente e feliz no cálido clima de Tupiza. É uma cidade muito agradável onde encontrei conforto e boa comida oferecida por um povo também mais cálido. Fiquei no "hospedaje My Home" na rua Avaroa. Lavei minha roupa empoeirada e desfrutei eternamente de chuveiradas quentes. O meu dia coincidiu com as festividades da bandeira boliviana e assisti ao desfile em praça pública, me entrosando na festa popular, comendo "tamales" e "charquecan", tomando refrescos típicos feitos de linhaça, soja ou pêssego. Logo cedo conheci um australiano no mercado, um dos poucos gringos. Tomamos um café expresso, indicado por ele, e marcamos para jantar mais tarde, acompanhado por sua esposa. Durante o dia levei a minha bicicleta para uma lavagem num mecânico de bicicleta dos vários da rua Santa Cruz. Eu mesmo fiz alguns ajustes nos freios, lubrifiquei a corrente e fiz outros ajustes referentes aos alforges. No mercado comprei frutas, pão e alguma coisa mais para a estrada do dia seguinte. A praça é muito simpática, arborizada e tem varias sorveterias e gente jovem. Internet não é um problema e a juventude lota os cybers. Tive problemas atualizando este blog pela velocidade da conexão, mas finamente consegui e fui para o hotel, já tarde, para me preparar para o dia seguinte. Próximo destino: Villazon - a tijuana bolivina.

Tupiza - Villazon, 92km

Dia 18 de Agosto. Parti às 9:15h, depois de passar no hotel Mitru para tomar café da manhã e no Il Bambino para comprar umas empadas salteñas para a estrada. Comecei o dia muito focado no meu objetivo: pedalar cerca de 100 quilômetros. Os primeiros poucos foram de rolamento fácil, mas logo entrei numa área muito montanhosa a qual me tomou várias horas de esforço. Foram 50km de pedal para atravessar a cordilheira Chichas, muito seca e cheia de cactos. Após o km 50, o terreno muda e favorece um desempenho melhor, mais pampa e geografia típica do altiplano. Esta etapa foi a mais movimentada de veículos. Passaram por mim vários caminhões de carga me fazendo comer poeira, assim como alguns ônibus de passageiros. Esta estrada também é de melhores condições, apesar das costelas, da poeira e do cascalho, como sempre. Me organizei estrategicamente para fazer 4 lanches durante o caminho e poder contar com minhas pernas ate o final. As paradas foram mínimas e quase não fiz fotos pois queria chegar no meu destino na luz do dia. No km 67 vi a primeira placa de toda a viagem (que me lembre), indicando cidades em uma bifurcação: Tarija/Villazon. Este trecho foi igualmente o mais povoado e passei pelas comunidades de Iyumi, Toploca, Suycuchacra, Chuquiago, Sta. Rosa, San Silvestre, Charaja, Saladillo, Arenales, El Tambo e Mojo. Cheguei em Villazon cansado, às 6h da tarde e me hospedei no Hostal Plaza. Após a rotineira volta a vida, passando por chuveirada, roupa limpa e jantar, fui dar um passeio na Argentina. Villazon é colada com La Quiaca, passo fronteiriço, foi simplesmente atravessar a ponte e pronto, já estava na Argentina. Não tive nem que apresentar documento, pois estava somente indo tomar um refrigerante. Quando passar a fronteira com a bicicleta e entrar de fato na Argentina deixando para trás a Bolívia, terei que fazer uma burocracia mínima. Amanhã cedo sairei da Bolívia, um dos paises mais pobres do continente e de maioria indígena, depois de mais de 700km de caminhos de terra cheios de areia, cascalho e intermináveis "calaminas", para entrar em um dos países mais desenvolvidos, de forte colonização européia. Será um grande contraste. O primeiro é que imediatamente após passar a fronteira começa o asfalto, que continuará ate o final da minha viagem em Salta. Assim que passar a fronteira, devo comprar um mapa de estradas para planejar a minha rota com mais precisão e calcular minhas paradas para concluir no dia 26. Ou seja, ainda não tenho o destino de amanhã.

Villazon - La Quiaca, 5km

Dia 19. Saí do meu hotel às 9h, me despedindo da Bolívia rumo a Argentina. Perdi 2 horas nas filas da fronteira e como na Argentina é uma hora mais tarde (como no Brasil), perdi um importante tempo, principalmente porque a cidade de La Quiaca não tinha casas de câmbio. Já estava na saída da cidade, rumo a Abra La Pampa que fica a 75km de distância, quando pensei 2 vezes e decidi ficar. Almocei calmamente e voltei para Villzon para comprar pesos já que o dia seguinte seria festa nacional e os bancos estariam fechados. A partir de agora será só asfalto e como tenho minha chegada prevista em Salta para o dia 26, vou com tempo e poderei me permitir paradas turísticas em Humahuaca e Tilcara. Daqui até Salta são mais ou menos 380km que pedalarei em 4 etapas. La Quiaca é bem mais tranqüila, mais arrumadinha e mais cara. Tem pouco comércio e se come muito melhor que na Bolívia. Por outro lado Villazon é bem agitada, especialmente na rua da ponte (fronteira), onde se vende de tudo, tem casas de câmbio e um ambiente bem muambeiro. As duas cidades estão a 3300m de altitude e convivem na sua diversidade como uma só. Em Villazon circulam as duas moedas e as coisas têm 2 preços, já do lado Argentino só aceitam pesos mesmo. Outra observação é que a internet nas 2 cidades é muito mais rápida que em todas as outras que já estive ao longo do trajeto. Isto se explica ao fato de que aqui é via telefone e nos outros pontos como Llica, Uyuni e Tupiza, é por satélite. A primeira coisa que se lê ao entrar na Argentina é "Las Malvinas son Argentinas"

La Quiaca - Humahuaca, 161km

Dia 20 de Agosto. Saí do meu hotel na rua Belgrano às 10:15h, decidido a pedalar até Abra Pampa. Antes de sair troquei o pneu traseiro da bicicleta colocando o de reserva, mais fino para rodar melhor no asfalto. Na operação perdi a segunda câmera, reserva da viagem, pois o bico simplesmente soltou da borracha. Agora só me resta uma. Pedalei forte, favorecido pela planície da Puna e o bom estado da estrada. Cheguei cedo(às 13h, com velocidade média de 29,7 km/h) em Abra Pampa (3350m) - a Sibéria Argentina - nome com o qual foi fundada. Parei para almoçar ali mesmo e já tinha decidido esticar a jornada até Humahuaca. Às 14h voltei para estrada bem focado e calculando a média mínima para chegar com luz. No km 100 (3610m), já tinha atravessado toda a Puna da província de Jujuy e começava a Quebrada de Humahuaca (patrimônio natural da humanidade) que revelou suas montanhas espetaculares. Logo depois encontrei o Marco, cicloturista alemão. Conversamos uns 20 minutos trocando informações e confraternizando. Nos despedimos e cada um seguiu no sentido contrário. Com a Quebrada começou também a descida que me levaria até os 2850m do meu destino do dia. Cheguei na simpática Humahuaca às 19 horas, com uma média de 26,10 km/h. Foram 6horas e 8 minutos sentado na bicicleta. Hoje passei pelos pueblos de: Pumahuasi(km 23), La Intermedia (km 38), Puesto del Marques(km 52), Abra Pampa (km 73), Tres cruces(km 103), Azul Pampa (km 122). Todos bastante pequenos.

Humahuaca - Maymara, 57km

Dia 21 de Agosto. Hoje sai tarde, depois de um merecido descanso e um passeio pela turística Humahuaca. Às 13:15h saí pela porta da pousada "El Relojero". Neste dia levei o pedal com muita tranqüilidade, parando para fazer fotos várias vezes e contemplando a belíssima Quebrada, cujo título de Patrimônio da Humanidade é muito merecido. Fiz algumas paradas também para conhecer rapidamente alguns pueblos. Esta área é bem turística e conta com infraestrutura e informação nos pontos de maior relevância. A estrada continuou a descer e praticamente não pedalei, somente me deslizei pelo asfalto admirando as montanhas. Passei por San Roque (km 6), Urquia (km 12), Colônia (km 22), Huacalera (km 28) e a bela e turística Tilcara (km 45), por onde dei um passeio antes de pedalar um pouco mais ate Maymara que fica aos 2350m de altitude.Neste ponto decidi uma vez mais modificar meu curso para voltar as montanhas.

Maymara - Acampamento Cuesta de Lipan, 53km

22 de Agosto. Parti às 10:30h de minha humilde morada. Maymara é bem mais simples e menos turística que Humahuaca ou Tilcara. Talvez por isso consegui alojamento bastante barato. A estrada continuou em declive, atravessando a Quebrada e passando pelo pequeno pueblo de Hornillos, no km 4. Logo depois cheguei a intercessão com a rota 52, no km 15 (2180m de altitude). Abandonei a rota 9, a qual vinha acompanhando e descendo desde La Quiaca e comecei a subir pela 52. Tinha percorrido 3/4 da Quebrada de Humahuaca e centenas de quilômetros em descida para mudar o perfil da viagem uma vez mais. No km 18 encontrei o pitoresco pueblo de Purmamarca com sua bela praça cheia de vendedores de artesanato. Aproveitei ali para garantir o prato de comida quente do dia ao redor das 12h. A Cuesta de Lipan é uma subida de praticamente 40km que chega a ser atração turística. Subi o dia todo calculando que ainda com luz chegaria no topo e poderia inclusive começar a descer para o outro lado das montanhas evitando o mal de altitude, vento e frio. A subida, entretanto, é severa e me levou mais tempo do que pensava. O vento logo depois de alguns km de subida começa a ser muito forte, o que me obrigou a descer da bicicleta ou a manobrar com perícia para continuar em cima dela. Fora a grande dificuldade da subida, a experiência foi memorável. Antes do km 32 da Rota 52 e faltando 5km para o topo, aproveitei para encher garrafinhas de água numa nascente a beira da estrada. Às 18:00h parei para me agasalhar, pois o entardecer e a violência do vento me preocupavam. Logo quando abri meu alforje perdi em um segundo meu protetor de rosto e pescoço (neck gaiter). Em um descuido de um instante, o vi voando em alta velocidade, a 200 metros estrada abaixo. Nem cogitei em correr atrás dele. O vento estava fortíssimo. Já neste ponto pedalava 100 metros e descansava 10 segundos para recuperar o fôlego, pois já rondava os 4000m. Continuei com a idéia de chegar ao topo e começar a descer, mas já era noite, ventava e fazia frio neste lugar inóspito. No km 42 passei pelo Abra de Lipan a 3969 e continuei com muito esforço estrada acima. A subida parecia não acabar nunca. Até que no km 53 do meu dia e preocupado pela noite e as condições, encontrei uma cabana de pedra a uns 200m da estrada, morro acima. Não tive muita dúvida e decidi acampar ali mesmo pois seria perigoso continuar. Subi a ladeira empurrando a minha bicicleta no meio de pedras e areia. Chamei pelos moradores da cabana, não obtive resposta e vi que a porta estava fechada com cadeado. Com a lanterna na boca, pois a estas alturas já eram 19:30h, já estava de noite comecei a montar a barraca a uns metros da cabana procurando me refugiar do vento com os muros de pedra. Dentro da barraca minha preocupação terminou e embora apertado, jantei ali dentro.

Aampamento Cuesta de Lipan-Acmpamento Salinas Grandes, 95km.

Dia 23 de Agosto. Apesar da altitude, dormi especialmente bem neste acampamento a 4170m. Foi difícil sair da “cama”, mas depois de um pouco de moleza e preparar minhas coisas, estava de volta à estrada as 10:30h. Logo no km 1,8 encontrei-me próximo ao topo da montanha, confirmando que tinha acampado entre o Abra da Cuesta de Lipan e o final da subida(Altos del Morado). Os poucos motoristas que passavam continuavam a buzinar e a me cumprimentar. No km 3, comecei o declive daquela magnífica “cuesta” (que em espanhol significa subida). Um novo horizonte se apresentou aos meus olhos, um conjunto de colinas e montanhas extremamente belas e coloridas bastantes similares às vistas na Quebrada, pois de fato não estava tão longe. No fundo e relativamente distante via-se o terceiro salar da minha viagem: as Salinas Grandes. O vento não era uma questão, mas o frio sim, pois apesar de estar fazendo sol ainda era cedo e o atrito do ar gelado se fazia notar. O ambiente criado por aquele novo vale e aquelas montanhas de outros tempos me surpreenderam com suas formas e cores de fantasia. Maravilhado, fui levado pela gravidade suavemente até o km 31 onde começou a planície das Salinas Grandes aos 3425m de altitude. Este salar é asfaltado e bem menor que os anteriores que tinha passado (Coipasa e Uyuni). Atravessei-o em direção a Susques e no km 45 entrei por uma estrada de terra à direita da pista, em busca de um prato quente de comida na vila de "Santuário de 3 Pozos". Depois de escassos 2 km, entrei nessa empoeirada comunidade e consegui comer no único restaurante. Durante a pausa pensei que seria melhor me dirigir em direção a San Antonio de los Cobres para não atrasar minha chegada em Salta. Assim voltei a estrada de asfalto e pedalei por onde tinha vindo, atravessando o salar novamente até o cruzamento com a rota 40 no km 67. Essa volta não foi nada sofrida pois o vento era a favor e a pista era asfaltada. Mas com a rota 40 começaram a poeira, cascalho, costelas e o vento contra, a níveis irritantes. Pensei que estrategicamente seria melhor pedalar o máximo que a luz do dia me permitisse para que no dia seguinte não tivesse uma distância excessiva nesse terreno tão difícil. Neste ponto tinha voltado a Puna (deserto de altitude típico do altiplano). Com o vento forte e piso de areia já estava pensando qual seria a melhor maneira de pernoitar, primeiro resguardo contra o vento e segundo firmeza das estacas da barraca na areia. Assuntos que de fato estavam relacionados...Mas sempre aparece uma solução e foi assim, por volta das 19 horas e com 95km pedalados encontrei uma série de muros de argila onde no passado houve uma casa. Ali mesmo refugiado do forte vento montei a minha barraca enquanto observava mais um pôr do sol inesquecível. Não consegui montar a barraca totalmente horizontal pois havia desnível (queria ficar próximo do muro) e também tive algum problema com a fixação das estacas, mas logo estava dentro da minha morada cigana jantando e vendo as fotos do dia, enquanto o vento uivava na imensidão da Puna.

Acampamento Salinas Grandes. San Antonio de los Cobres,72km

24 de Agosto. Após desmontar o acampamento e tomar um breve café da manhã, voltei a estrada às 9:40h. O caminho era bastante plano, porém as costelas são quase insuportáveis. Em certos trechos a areia torna a tarefa de cruzar esse território em um ato heróico. Aos 9km, uma raposa cruzou o meu caminho. Ela atravessou a estrada e ficou me observando desde um ponto na altura da colina. Também parei e retribui o gesto. Continuei pedalando a beira das Salinas Grandes e ao redor do meio dia parei para almoçar a beira do caminho. Ali mesmo aproveitei para trocar o pneu traseiro pelo de reserva, mais grosso, tarefa que vinha adiando durante toda a manhã. A tração melhorou levemente e talvez o amortecimento, mas certamente continuei a me esforçar muito a cada pedalada.Havia tanta areia em certos trechos que as costelas que apareciam eram bem-vindas. Pelo menos me permitiam avançar sem patinar naquele solo. Ás 12:30h começou o vento forte e fatalmente o trinômio: areia, costelas e vento, o que fez desta etapa uma das mais duras. Com 50km pedalados encontrei o cruzamento da RP 38 que vinha de Susques, o que me aliviou um pouco pois era uma novidade no meu dia e indicativo da proximidade do meu destino. Além de confirmar de que estava no caminho certo. Depois de alguns quilômetros mais, enxerguei ao longe a cidade que me esperava, e aos poucos e muito cansado cheguei em San Antonio de los Cobres (3735m). Cheguei no começo da tarde depois de 72km pedalados, 7 horas em cima da bicicleta com uma media de 10,3 km/h. Após consultar preços em 2 pousadas fiquei na mais barata pois não encontrei nenhuma com banho quente no quarto e o conforto que pensei iria encontrar lá. De fato é a maior cidade da região, mas além de internet não encontrei a infraestrutura esperada para me recuperar dos dois dias de acampamento na Puna, o que me decepcionou um pouco. A simpatia do pousadero: Don Tapia, que logo ao chegar me ofereceu uma xícara de chá e biscoitos, entretanto, foi reconfortante. Depois de jantar um prato quente de comida, tendo passado 2 dias me alimentando somente de enlatados, usei a internet e fui dormir no meu quartinho com telhado de zinco naquela cidade mineira.

San Antonio de los Cobres - Santa Rosa de Tástil,69km

25 de Agosto. Acordei com calma e sai para comprar alguma comida e água para minha jornada do dia. Pude constatar que fazia muito frio e o vento era imenso, empoeirando as ruas da precária vila. Pensando que o dia seria fácil, já que o caminho a frente era de descida, saí tarde, por volta das 12:45h. Empreendi a minha jornada no meio de um vendaval que chegava a ser irritante. No início a pista ainda de terra sobe um pouco até os 3880m e foi nesse início que me vi imerso dentro de uma tormenta de areia, com um vento fortíssimo. Tinha areia até no interior de minhas luvas "full finger" que estavam fechadas no punho. Por sorte, neste começo o vento era a favor, o que favoreceu meu movimento, mas tinha momentos em que não enxergava um palmo a minha frente. A areia dominava a atmosfera. No km 14 encontrei o cruzamento para o Abra Acay e La Poma. Continuei pelo meu caminho e no km 23 cheguei no Abra Muñano, a 3970 metros de altitude, onde começava o asfalto. Ali em Muñano tem uma estação de trem abandonada onde encontrei refúgio do vendaval e aproveitei para colocar a capa de chuva nos alforges, trocar o pneu para um de asfalto, trocar o pisca e fazer algumas notas. Continuei o meu caminho na pista de asfalto com um vento absurdo. Repito que nunca tinha visto nada igual em minha vida. Tanto que era perigoso pedalar por aí. No acostamento direito, o vento - agora lateral - me jogava para o meio da pista podendo causar um acidente sério se passasse algum veículo. Por isso fui para o acostamento esquerdo, mas o vento me empurrava para fora da estrada. Era muito difícil pedalar, pois simplesmente não podia pilotar. Pedalava 10m e parava, empurrando a bicicleta, preocupado. A situação era grave e não conseguia manter o rumo. Apesar de aos poucos ir descendo, o vento continuava e nas curvas ou precipícios desmontava com medo de uma rajada me derrubar. Continuei pelo acostamento do lado direito por um bom tempo até que depois de alguns quilômetros diminuiu a violência. No km 49 passei pela vila de las Cuevas e no km 63 cheguei na placa indicativa das ruínas de Tástil. Pedalei por um caminho de terra por uns 2 km, até chegar nas ruínas, antigo assentamento pré-incaico e que certamente fazia parte do Qhapaq-Ñan. Completamente desertas, pedalei por trilhas dentro das ruínas e tirei algumas fotos. Depois, com o pôr-do-sol, voltei à estrada e com 69 km pedalados cheguei em Santa Rosa de Tástil, a 3095m de altitude. Certamente bem menor do que imaginei, pois a vila é composta de uma rua e poucas casas e tinha somente um lugar aberto onde eu poderia comer. Ali perguntei por pousada e me indicaram a muito humilde morada da Sra. Maria, onde sem luz e num quarto com 3 camas me instalei. Já estava no meu sexto dia sem tomar banho e me sentindo sujo e cansado. Iria para o sétimo, pois aqui também era inviável tomar banho. Troquei de roupa e fui jantar uma espécie de cozido no único local da vila.

Santa Rosa - Salta,108km. FIM.

26 de Agosto. Parti cedo, às 9:20h, desejoso de chegar ao meu destino final. O asfalto era muito bom e as paisagens belíssimas. Na descida passei pela Quebrada del Toro, Quebrada Carachi e pequena vila de Incamayo (43km). Com 49km pedalados começou um trecho de estrada de terra, onde o declive é mais leve. No km 64 passei pela pequena vila de El Mollar e no km 73 a estrada tornou a ser asfaltada. No km 75 cheguei na cidade de campo Quijano (1485m), bem maior que todas as da serra, e com uma ótima pinta para se descansar. Como já estava muito perto de Salta e ainda tinha algumas horas de luz pela frente, optei por continuar. O caminho até Salta é cheio de campos cultivados e de belas casas de campo. Na entrada de Salta me encontrei com várias rodovias e sinais de proibido andar em bicicleta. Num acostamento um arame entrou na catraca da bicicleta, se enroscando e travando a minha roda traseira. Por sorte parei a tempo do estrago não ser irreversível e consegui retirar o arame, o que atrasou minha chegada ao centro de Salta. A cidade é grande, tive que atravessar todo subúrbio até o centro. Finalmente encontrei meu destino final, depois de 17 etapas e quase 1400 km pedalados. Estava bastante desarrumado e com cara de quem atravessou o Altiplano em bicicleta, há sete dias sem tomar banho. Cheguei no meu belíssimo hotel de 4 estrelas. Nunca valorizei tanto o conforto e fui direto tomar um banho de banheira bem prolongado. Salta é uma bela cidade colonial, cheia de restaurantes, hotéis. É muito aconchegante e hospitaleira. Fiquei descansando 2 dias e peguei meu vôo para Buenos Aires, para logo voltar ao Rio de Janeiro.
Visite também o site: www.qhapaqnan.net